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Para o ser humano a relação é indispensável, natural e difícil. Que seja uma relação significativa ainda é mais difícil. É por isso que aqueles que a ela se querem dispor, precisam de a estudar.

Relação é um termo bastante amplo que se aplica a múltiplos domínios da matéria, do mundo e da vida. O Dicionário da Língua Portuguesa atribui-lhe, entre outros, dois significados que escolhi por considerar que traduzem bem o que é essencial para qualquer relação humana significativa, e que inclui a relação de ajuda: Ligação, Conexão.

O Homem é um ser social. Precisa de relações significativas, verdadeiras e profundas para viver. “Uma das verdades mais essenciais da existência humana é: Ser, para uma pessoa, é ser-com-os-outros. (...) O calor, o cuidado, a empatia e a dedicação são essenciais ao amor que, por sua vez, é essencial ao processo de tornar-se uma pessoa.”

Os verbos-chave da relação são: Dar, Receber, Recusar, Pedir... E as emoções a linguagem mais comum. “Compreender melhor os outros, reagir com empatia às suas necessidades e aos seus sentimentos, permite ter menos medo dos outros, sentirmo-nos mais próximos, mais solidários e reforçar a cooperação” .

Rogers define Relação de Ajuda como “As relações nas quais pelo menos uma das partes procura promover na outra o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade, um melhor funcionamento e uma melhor capacidade de enfrentar a vida” .

Muitas relações, em vários âmbitos, podem preencher esta definição e portanto, serem de ajuda.

As relações familiares, desenvolvidas entre pais e filhos, entre irmãos e, porque não, entre marido e mulher, procuram (e devem procurar) promover o crescimento no outro.

Quando o médico escolhe uma profissão de ajuda está implicitamente a dizer que deseja promover o desenvolvimento do bem-estar do outro, ainda que muitas vezes permita que esse outro se torne apenas um objecto da sua própria experiência.

O professor, se entender que tem uma missão mais do que uma profissão, pode Ser com os seus alunos e viver com eles relações muito significativas.

A amizade (conforme eu a entendo) pode ser um campo frutífero de ajuda mútua em que cada um promove a mudança e o crescimento no outro.

As comunidades organizam-se em torno de algo que os une. Uma ideologia ou, simplesmente, um momento circunstancial comum. Muitas vezes o indivíduo é massificado; no entanto, é construir comunidades centradas na pessoa, onde o ambiente permita o crescimento individual.

Pode haver o desejo de promover o crescimento e ainda assim a relação não ser de ajuda.

As atitudes de ambas as partes são determinantes para fazer de uma relação, uma relação de ajuda.

Entram aqui, em linha de conta as atitudes do ajudador/conselheiro. Rogers menciona um estudo realizado por Baldwin e outros em que “as crianças, quando são tratadas pelos pais com afecto e de igual para igual, revelam um desenvolvimento intelectual acelerado, maior originalidade, uma segurança emotiva e um domínio mais profundo, menor excitabilidade, do que as crianças que provêm de outros tipos de família. (...) Tornavam-se chefes populares, amigáveis e não agressivos. (...) Quando as atitudes dos pais são classificadas como sendo de “rejeição activa” (...) as crianças são afectivamente instáveis, rebeldes, agressivas...”

Quando essas atitudes de respeito pela individualidade do outro e de interesse sem desejo de posse estão presentes noutro tipo de relações, os resultados são os mesmos.

Para que uma relação de ajuda possa acontecer o conselheiro tem de estar disposto a dar-se. Precisa, para que a relação seja de ajuda, sentir um interesse genuíno pelo outro como pessoa, ver-se na relação de igual para igual, em proximidade, autenticamente presente, reconhecer no outro a capacidade de mudança garantindo-lhe a liberdade de a conduzir. “As atitudes que consistem em recusar-se como pessoa e em tratar o outro como um objecto, não têm grandes probalidades de servir para alguma coisa”

A atitude do outro também é importante na determinação do significado da relação. Ele precisa compreender, em primeiro lugar, que está em necessidade de ajuda. Também tem de desejar receber essa ajuda como ponto de partida na relação ou dificilmente se abrirá para ela.

O conselheiro necessita acreditar no potencial humano de auto-cura e auto-realização. Acreditar que aquela pessoa quer e pode curar-se, que tem dentro de si os recursos necessários, e que sabe qual o melhor caminho ou caminhos para o seu crescimento.

Também necessita estar em congruência consigo mesmo e na relação.

“A relação de ajuda óptima é o tipo de relação criada por uma pessoa psicologicamente madura..”

Na relação de ajuda acontece um contacto de pessoa a pessoa. Onde é garantida a liberdade para partilhar as emoções. A partilha de emoções gera confiança.

“Dizer (expressar) é respeitar. É considerar o outro como pessoa é dar-lhe os meios para gerir a sua vida. Não dizer, é faltar ao respeito, é manter o outro na dependência, é considerá-lo incapaz de tomar conta de si.”

Quando se está numa relação em que o crescimento e a felicidade do outro são tão reais como o crescimento e felicidade próprios, há compreensão, vive-se liberdade e respira-se afectividade.

A relação de ajuda é, de facto, uma relação do coração. De coração a coração.

Rogers equacionou, com uma série de questões, a capacidade pessoal para criar uma relação de ajuda. Reflectir sobre elas testará a nossa própria atitude e ajudar-nos-à a encontrar as nossas próprias respostas:

1. Poderei SER, de uma forma que possa ser apreendida pelo outro como merecedora de confiança?

2. Poderei ser suficientemente expressivo para que a pessoa que sou se possa expressar sem ambiguidades?

3. Serei capaz de ter uma atitude positiva para com o outro – calor, atenção, afeição, interesse e respeito?

4. Poderei ser suficientemente forte como pessoa para ser independente do outro?

5. Estarei suficientemente seguro no meu interior para permitir ao outro ser independente?

6. Poderei entrar no mundo dos sentimentos e das concepções pessoais do outro e vê-lo como este o vê?

7. Poderei aceitá-lo como ele é e comunicar-lhe essa atitude?

8. Serei capaz de agir com delicadeza suficiente para não ser captado como uma ameaça?

9. Poderei libertá-lo do receio de ser julgado pelos outros?

10. Serei capaz de ver esse indivíduo como uma pessoa em processo de transformação ou estarei prisioneiro do meu passado e do seu passado?

“ A minha capacidade de criar relações que facilitem o crescimento do outro como uma pessoa independente mede-se pelo desenvolvimento que eu próprio atingi.”

Um conjunto de atitudes que são apropriadas, que se tornam parte integrante da pessoa que é o/a conselheiro(a) e estão presentes na relação sem contudo serem vistas como técnicas ou instrumentos de trabalho são, sem dúvida, determinantes do sucesso dessa relação.

Ha três condições que devem estar presentes para que se crie um clima facilitador de crescimento:

1-Congruência, Genuinidade. Esta é sem dúvida uma das razões para olharmos para nós mesmos antes de olharmos para os outros. Exige que possa verdadeiramente acolher, aceitar, não julgar, ser honesto, colocar-me no lugar do outro, abrir mão do distanciamento, das interpretações pessoais e do poder. É imprescindível que nos olhemos com honestidade. Porque afinal, “Nós não somos só aquilo que estamos habituados a ser, podemos tornar-nos naquilo que queremos ser.”

Quem sou eu? Quem sou eu e como me sinto na relação? Após encontrar a resposta, fica seguro de si, em contacto consciente consigo e com os seus sentimentos.

2- Aceitação (interesse ou consideração) positiva incondicional (sem desejo de poder)

Significa aceitação do que é aquela pessoa, da sua experiência, das suas convicções, forma de ver o mundo, dos seus valores, dos seus sentimentos... sem negociação, sem julgamento, sem condenação, por muito diferentes que sejam dos meus. Implica reconhecer, aceitar e valorizar a diferença.

3- Compreensão empática. Implica escutar muito, de maneira cuidadosa e activa. Escutar sem os filtros dos preconceitos e olhar sem as lentes da minha própria compreensão do mundo e das coisas.

Ser sensível não apenas às palavras proferidas, mas também às tonalidades da experiência, à intensidade com que se manifestam os sentimentos.

Requer que no sentido de esclarecer o que se ouve se devolva o que é apreendido para que se torne claro, no interesse do outro.

Em conclusão repito a afirmação de Rogers “Não é das ciências físicas que o futuro depende, é de nós que ele depende. De nós que tentamos compreender e enfrentar as interacções entre os homens – que procuramos criar relações pessoais de ajuda.”